quarta-feira, 15 de julho de 2009

Won't you dance with me?

“And when you want to live,how do you start, where do you go,who do you need to know?”
(The Boy With The Thorn In His Side – The Smiths)

O que precisamos saber para viver?
A que preço nosso coração se corrompe? É tão engraçada a consciência de que esse mundo é visto por tantas lentes divergentes, quantas interpretações milhões de globos oculares são capazes de dar a cada passo de uma formiga? E será que faz alguma diferença saber como é o passo desse ser? Mas e não saber? Priva-nos de conhecer os mais minúsculos detalhes da vida?
Se eu ainda tivesse tempo de brincar na rua, de cair de bicicleta, de ter uma casa na árvore, de dançar, de voar no fundo do quintal com um lençol amarrado no pescoço... Ah se o tempo ainda fosse meu amigo! Se ele não insistisse em ser o meu mais perverso e cruel inimigo, mais parecido com um gladiador espartano do que com o senhor da razão, quem sabe eu ainda tivesse a chance de saber se o que eu tenho já é suficiente para me deixar na trilha certa de uma vida colorida. Colorida, cheirosa, com gosto de doce!
Chegar aos vinte anos e perceber que tudo o que você possui de mais concreto se encontram em caixas de sapatos 37 e em araras compridas e lotadas de bolsas não é a meta de vida que eu planejei com dez anos. Quando tinha dez anos, além de me sentir adulta, experiente e uma mulher formada como todas as outras meninas de dez anos que eu conhecia, eu planejava (e tinha uma certeza mais absurdamente firme que a Esfinge) que quando eu completasse dezoito anos eu ficaria noiva de um homem lindo, loiro e alto, que aos dezenove anos estaria formada (sabe-se Deus em que eu me formaria entrando em uma faculdade com dezessete e saindo formada com dezenove anos) e casada, planejando meu primeiro filho. Claro que essa era uma meta de vida muito madura, pois eu já tinha dez anos, era praticamente a Dakota Fanning, mas antes disso eu quis ser modelo, dançarina, veterinária e a Xuxa.
E se por mais absurdo que possa parecer, algum desses sonhos infantis tivessem se materializado? E se hoje eu fosse uma mulher casada com um filho no colo? Ou pior, se eu fosse a Xuxa?
Graças a Deus e a tudo que conspira a favor de todos os adultos com sonhos ridículos de criança, eu ainda estou aqui solteira e sem ser, nem de longe, qualquer coisa parecida com a Xuxa.
Mas eu precisei de cada sonho mal elaborado que tive com todas as idades para poder continuar sonhando hoje. E eu ainda não sei viver, meu coração e minha razão se vendem por coisas tão simples, eu ainda não criei maturidade suficiente para pensar como um adulto extremamente responsável de quarenta e cinco anos, eu ainda quero toda essa vitalidade, essa energia, essa sagacidade que me reservam os vinte! Eu não sei, e na verdade eu quase posso prever que mesmo perto da casa dos trinta eu ainda não saberei, se sei, soube ou se ainda aprenderei a viver.
Eu acho a idéia de aprender enquanto se vive muito injusta, e o tempo que eu perco no fundo do poço? E o tempo que eu perdi sem saber onde estava a mola do fundo do meu poço? E os litros de mertiolate que eu poderia ter poupado os meus joelhos em cada tombo de bicicleta? E na minha época de criança ele ardia!
Será que valeria pular essas partes? Ter vivido só de sucessos, ter conseguido o máximo de prazer e plenitude em todos os meus atos desde pequena? Ser hedonista faz algum sentido nesse caos social que chamamos de mundo?
Não que isso justifique o sofrimento, eu não gosto da dor, não gosto do sal das lágrimas e não gosto do vazio que fica depois de cada tristeza, também não creio que isso é uma fase e que depois a felicidade vem, colore tudo e você pára e valoriza cada angústia que sentiu, pois o sabor confortável da alegria é deliciosamente venenoso.
Acho que só sabe viver aquele que vive cada momento da forma que prescrevem na bula: “Ei você quebrou um braço, chore! Está doendo, esperneie! Grite!”, “ Querido você vai brincar com seus primos no final de semana até as 21h! Pule! Sorria! Fique feliz!”.
Não gosto de colocar no que escrevo trechos religiosos, acredito que quando você conclui dessa forma a impressão que se tem é de que tudo o que foi dito antes do versículo era introdutório a uma mensagem de conversão, que coisa chata! Mas vale ressaltar esse aqui: “Tudo tem a sua ocasião própria, e há tempo para todo propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou.” (Ec 3.1-2).
Depois de tudo, eu acho que está aí a palavra chave para a primeira pergunta que indaguei: Tempo. O que precisamos saber para viver? Precisamos saber respeitar o tempo. Respeitar e obedecê-lo. Respeitar e amá-lo. Respeitar e aceita-lo.
Quem sabe ele é generoso conosco e nos permite chegar aos oitenta anos podendo buscar manga no pé, nos escondermos em nossas casinhas nas árvores e ficar ali, até a chuva começar a cair a trazer todas as lembranças à nossa mente. Lembranças que nos deixaram marcas, que marcaram os outros, que nos arrancaram sorrisos, mas que também nos apunhalaram facas, independentemente de como serão as suas lembranças... as minhas...eu quero que tenham a cor do meu primeiro batom rosa, o tamanho do meu primeiro cachorro e o cheiro da pipoca do meu pai.