“And when you want to live,how do you start, where do you go,who do you need to know?”
(The Boy With The Thorn In His Side – The Smiths)
O que precisamos saber para viver?
A que preço nosso coração se corrompe? É tão engraçada a consciência de que esse mundo é visto por tantas lentes divergentes, quantas interpretações milhões de globos oculares são capazes de dar a cada passo de uma formiga? E será que faz alguma diferença saber como é o passo desse ser? Mas e não saber? Priva-nos de conhecer os mais minúsculos detalhes da vida?
Se eu ainda tivesse tempo de brincar na rua, de cair de bicicleta, de ter uma casa na árvore, de dançar, de voar no fundo do quintal com um lençol amarrado no pescoço... Ah se o tempo ainda fosse meu amigo! Se ele não insistisse em ser o meu mais perverso e cruel inimigo, mais parecido com um gladiador espartano do que com o senhor da razão, quem sabe eu ainda tivesse a chance de saber se o que eu tenho já é suficiente para me deixar na trilha certa de uma vida colorida. Colorida, cheirosa, com gosto de doce!
Chegar aos vinte anos e perceber que tudo o que você possui de mais concreto se encontram em caixas de sapatos 37 e em araras compridas e lotadas de bolsas não é a meta de vida que eu planejei com dez anos. Quando tinha dez anos, além de me sentir adulta, experiente e uma mulher formada como todas as outras meninas de dez anos que eu conhecia, eu planejava (e tinha uma certeza mais absurdamente firme que a Esfinge) que quando eu completasse dezoito anos eu ficaria noiva de um homem lindo, loiro e alto, que aos dezenove anos estaria formada (sabe-se Deus em que eu me formaria entrando em uma faculdade com dezessete e saindo formada com dezenove anos) e casada, planejando meu primeiro filho. Claro que essa era uma meta de vida muito madura, pois eu já tinha dez anos, era praticamente a Dakota Fanning, mas antes disso eu quis ser modelo, dançarina, veterinária e a Xuxa.
E se por mais absurdo que possa parecer, algum desses sonhos infantis tivessem se materializado? E se hoje eu fosse uma mulher casada com um filho no colo? Ou pior, se eu fosse a Xuxa?
Graças a Deus e a tudo que conspira a favor de todos os adultos com sonhos ridículos de criança, eu ainda estou aqui solteira e sem ser, nem de longe, qualquer coisa parecida com a Xuxa.
Mas eu precisei de cada sonho mal elaborado que tive com todas as idades para poder continuar sonhando hoje. E eu ainda não sei viver, meu coração e minha razão se vendem por coisas tão simples, eu ainda não criei maturidade suficiente para pensar como um adulto extremamente responsável de quarenta e cinco anos, eu ainda quero toda essa vitalidade, essa energia, essa sagacidade que me reservam os vinte! Eu não sei, e na verdade eu quase posso prever que mesmo perto da casa dos trinta eu ainda não saberei, se sei, soube ou se ainda aprenderei a viver.
Eu acho a idéia de aprender enquanto se vive muito injusta, e o tempo que eu perco no fundo do poço? E o tempo que eu perdi sem saber onde estava a mola do fundo do meu poço? E os litros de mertiolate que eu poderia ter poupado os meus joelhos em cada tombo de bicicleta? E na minha época de criança ele ardia!
Será que valeria pular essas partes? Ter vivido só de sucessos, ter conseguido o máximo de prazer e plenitude em todos os meus atos desde pequena? Ser hedonista faz algum sentido nesse caos social que chamamos de mundo?
Não que isso justifique o sofrimento, eu não gosto da dor, não gosto do sal das lágrimas e não gosto do vazio que fica depois de cada tristeza, também não creio que isso é uma fase e que depois a felicidade vem, colore tudo e você pára e valoriza cada angústia que sentiu, pois o sabor confortável da alegria é deliciosamente venenoso.
Acho que só sabe viver aquele que vive cada momento da forma que prescrevem na bula: “Ei você quebrou um braço, chore! Está doendo, esperneie! Grite!”, “ Querido você vai brincar com seus primos no final de semana até as 21h! Pule! Sorria! Fique feliz!”.
Não gosto de colocar no que escrevo trechos religiosos, acredito que quando você conclui dessa forma a impressão que se tem é de que tudo o que foi dito antes do versículo era introdutório a uma mensagem de conversão, que coisa chata! Mas vale ressaltar esse aqui: “Tudo tem a sua ocasião própria, e há tempo para todo propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou.” (Ec 3.1-2).
Depois de tudo, eu acho que está aí a palavra chave para a primeira pergunta que indaguei: Tempo. O que precisamos saber para viver? Precisamos saber respeitar o tempo. Respeitar e obedecê-lo. Respeitar e amá-lo. Respeitar e aceita-lo.
Quem sabe ele é generoso conosco e nos permite chegar aos oitenta anos podendo buscar manga no pé, nos escondermos em nossas casinhas nas árvores e ficar ali, até a chuva começar a cair a trazer todas as lembranças à nossa mente. Lembranças que nos deixaram marcas, que marcaram os outros, que nos arrancaram sorrisos, mas que também nos apunhalaram facas, independentemente de como serão as suas lembranças... as minhas...eu quero que tenham a cor do meu primeiro batom rosa, o tamanho do meu primeiro cachorro e o cheiro da pipoca do meu pai.
quarta-feira, 15 de julho de 2009
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Sobre esse "Quem sou eu"
"É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer por que no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.” Clarice Lispector
E mais uma vez tenho de acolher pensamentos de Clarice.
Quem sou eu? Meu nome é Maiara, tenho 19 anos, sou curitibana e estou no terceiro ano de Direito, gosto de cachorros, sou antipática e quero trabalhar no Ministério Público.
Muito bem, essa sou eu.
Certa feita me pego pensando se sou eu mesmo, se eu sou dessa forma ou se a cada dia tento me convencer de que sou assim.
A segunda opção é a que me cabe. A verdade é que abri mão de sonhos, de planos, e fui lapidando a vida que construí até hoje.
E veementemente se fazem valer todos os ditados de nossas mães: “amigos vêm e vão”,” aprenda a pedir desculpas”, “ estude muito e trabalhe no que te faz feliz”, e por aí vai.
Os sonhos que abdiquei poderiam ter me levado a caminhos inexplorados, poderiam ter me oferecido pessoas desconhecidas e poderiam ter me feito mais feliz.
Meu sonho de fazer faculdade de letras, e de trabalhar em um jornal, foram abdicados pro acreditar que posso ajudar Pontes de Miranda a modificar a frase “ Uma justiça lenta nunca é justa”, me envolvi pelas causas humanas e dedico parte suficientemente interessante à isso. Ter pedido mais desculpas, ter errado menos, me pouparia uma vida com pouquíssimos amigos.
Mas e a minha felicidade estaria em um nível benigno? Vejo que se eu tivesse mudado minhas escolhas, talvez a vida não me desse um número extremamente reduzido de amigos, porém confiáveis e leais, talvez não me desse o presente do grande, apaixonado e único amor, talvez não me desse a chance de lutar pela causa incessante de por fim a morosidade do judiciário brasileiro.
Na verdade só tenho a agradecer por ter fé em uma força superior que perdoou todas as minhas iniqüidades e ainda me deu a dádiva de estar viva, vivendo meus dias turbulentos, cheios, por vezes cinza e sem graça, mas eu ainda estou viva.
Penso nas pessoas que já não estão mais perto de mim, que partiram para nunca mais voltar, penso nos amigos que perdi, nos empregos que recusei, nos tantos “nãos” proferidos por mim, penso e peso todas as conseqüências dessas escolhas.
E posso ter cicatrizes dos espinhos, mas as rosas que desabrocharam e desabrocham no meu jardim são edificantes.
O que posso compartilhar contigo, caro amigo leitor, é que “Quem sou eu” é uma oração que nos causa euforia quando indagada e nos limita quando respondida. Nossas respostas são incansáveis na busca eufórica de ter o que dizer quando nos perguntarem o que e como somos.
E pensando melhor, não quero me rotular e nem me limitar, ainda quero voar de asa – delta, quero passear de balão, quero conhecer Manaus, quero morar no Rio Grande do Sul, quero ser mais simpática, quero cultivar minhas novas amizades e quero conseguir amar meu grande amor o suficiente para que quando eu o deixe nesta terra ele ainda sinta meu perfume no vento.
Quem sou eu?
Maiara, 19 anos, curitibana. Romântica camuflada, insegura quanto à solidão e que teme envelhecer. Amo demais, sinto ciúmes demais, telefono demais e falo excessivamente. Quero cursar letras e passar a vida viajando com meu grande amor.
Mas esse... esse é meu segredo. Ninguém sabe que sou assim. Nem mesmo eu, pois se soubesse teria prazer em me conhecer.
E mais uma vez tenho de acolher pensamentos de Clarice.
Quem sou eu? Meu nome é Maiara, tenho 19 anos, sou curitibana e estou no terceiro ano de Direito, gosto de cachorros, sou antipática e quero trabalhar no Ministério Público.
Muito bem, essa sou eu.
Certa feita me pego pensando se sou eu mesmo, se eu sou dessa forma ou se a cada dia tento me convencer de que sou assim.
A segunda opção é a que me cabe. A verdade é que abri mão de sonhos, de planos, e fui lapidando a vida que construí até hoje.
E veementemente se fazem valer todos os ditados de nossas mães: “amigos vêm e vão”,” aprenda a pedir desculpas”, “ estude muito e trabalhe no que te faz feliz”, e por aí vai.
Os sonhos que abdiquei poderiam ter me levado a caminhos inexplorados, poderiam ter me oferecido pessoas desconhecidas e poderiam ter me feito mais feliz.
Meu sonho de fazer faculdade de letras, e de trabalhar em um jornal, foram abdicados pro acreditar que posso ajudar Pontes de Miranda a modificar a frase “ Uma justiça lenta nunca é justa”, me envolvi pelas causas humanas e dedico parte suficientemente interessante à isso. Ter pedido mais desculpas, ter errado menos, me pouparia uma vida com pouquíssimos amigos.
Mas e a minha felicidade estaria em um nível benigno? Vejo que se eu tivesse mudado minhas escolhas, talvez a vida não me desse um número extremamente reduzido de amigos, porém confiáveis e leais, talvez não me desse o presente do grande, apaixonado e único amor, talvez não me desse a chance de lutar pela causa incessante de por fim a morosidade do judiciário brasileiro.
Na verdade só tenho a agradecer por ter fé em uma força superior que perdoou todas as minhas iniqüidades e ainda me deu a dádiva de estar viva, vivendo meus dias turbulentos, cheios, por vezes cinza e sem graça, mas eu ainda estou viva.
Penso nas pessoas que já não estão mais perto de mim, que partiram para nunca mais voltar, penso nos amigos que perdi, nos empregos que recusei, nos tantos “nãos” proferidos por mim, penso e peso todas as conseqüências dessas escolhas.
E posso ter cicatrizes dos espinhos, mas as rosas que desabrocharam e desabrocham no meu jardim são edificantes.
O que posso compartilhar contigo, caro amigo leitor, é que “Quem sou eu” é uma oração que nos causa euforia quando indagada e nos limita quando respondida. Nossas respostas são incansáveis na busca eufórica de ter o que dizer quando nos perguntarem o que e como somos.
E pensando melhor, não quero me rotular e nem me limitar, ainda quero voar de asa – delta, quero passear de balão, quero conhecer Manaus, quero morar no Rio Grande do Sul, quero ser mais simpática, quero cultivar minhas novas amizades e quero conseguir amar meu grande amor o suficiente para que quando eu o deixe nesta terra ele ainda sinta meu perfume no vento.
Quem sou eu?
Maiara, 19 anos, curitibana. Romântica camuflada, insegura quanto à solidão e que teme envelhecer. Amo demais, sinto ciúmes demais, telefono demais e falo excessivamente. Quero cursar letras e passar a vida viajando com meu grande amor.
Mas esse... esse é meu segredo. Ninguém sabe que sou assim. Nem mesmo eu, pois se soubesse teria prazer em me conhecer.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Disritimia
Hoje a caminho da faculdade, logo cedo, lá por 07:15 da manhã, coloquei minha rotina em dia. E os costumes que haviam sido arremessados para dentro de uma caixa escrito “férias”, saíram desta denominação e voltaram com força total ao meu cotidiano.
Ver as mesmas pessoas todos os dias, fazer o mesmo trajeto: de casa para a faculdade, da faculdade para casa, de casa para a caminhada, da caminhada para casa. E o mais impressionate é que não sou prisioneira apenas das minhas orbigações diárias, mas de tudo o que pertence a esse mundo de responsabilidades corriqueiras. Por três anos consecutivos apanho o mesmo ônibus no mesmo horário e local com destino em comum com a grande parte dos transeuntes, e ninguém se comunica. Incrível a intolerância que cultivamos desde os primeiros passos, ela nos reveste em uma capa de individualidade intransponível. Estamos todos juntos, próximos no interior insalubre de um ônibus, somos os mesmos, ninguém com mudanças realmente relevantes, e muito menos alguém com a mudança tão excitante de ter a simpátia de iniciar uma nova relação social.
Há alguns rostos novos, alguns que são calouros nessa rotina de caminho, alguns que estão perdidos, outros que estão perdidos em si mesmos, e o silêncio é tão intrigante quanto dominador naquele espaço.
São 30 minutos escravos de uma falta de cores e sons, demasiadamente irritante. Por que ninguém se apresenta? Ou pelo menos se cumprimenta? Por que toda essa frieza e indiferença? Faço parte desse metro cúbico de antipatia.
É presunçoso que todos saibamos da vida de todos dentro daquele ônibus. Sabemos onde cada um desce e toma posse da maratona de seu dia, sabemos onde trabalham, estudam, o que fazem, os horários, e até mesmo do que gostam, uns gostam de rosa e amarelo e não se incomodam em usar a combinação, outros, se incomodam em ver tal combinação. Essa sou eu.
Só posso falar por mim, falar das minhas aspirações e opiniões, o dia dos outros não me pertence.
Insuficiente o que presencio no caminho até a faculdade todos os dias, a (in)satisfação vem à cavalo. Na faculdade as pessoas ainda são as mesmas e olhe só que novidade estúpida: os hábitos são milimetricamente os mesmos. Quiçá alguns tenham tomado as rédias de suas vidas e alterado alguma coisa por mais mínima que seja, mas superficialmente é tudo a mesmice cinza e insossa de sempre.
A sala dividida em grupos, as que estudam demais, os que estudam de menos, as que vão apenas para divulgar seu belíssimo corpo e as que lutam para alcançá-las, os que saem demais e fazem questão de catalogar suas peripécias a todo o campus e os que saem de menos e ainda assistem a missa da Puc. Rotinas diferentes, pessoas diferentes, esses lugares são verdadeiros picadeiros, manicômios e ninguém se dá conta, pois meu caro leitor há de concordar que unir 60 pessoas em uma sala de aula, apenas com o critério de terem escolhido o mesmo curso de graduação é um tanto imprevisível.
Poderiam acontecer muitas coisas, coisas agradabilíssimas e coisas extremamente dispensáveis, são seres com vidas e costumes diferentes, que nunca se viram, que nunca conviveram, e de repente são invadidas por milhões de idéias e opiniões divergentes das suas, e terão de ter flexibilidade para aceitá-las (ou descartá-las) durante cinco longos e cretinos anos.
A procura incansável por essa flexibilidade nunca recebe seu ponto final, e o que eu concluo de todo esse grito de desabafo? Particularmente, espero encontrar meu pote no final do arco-íris repleto e transbordante de flexibilidade, paciência e tolerância. Cada um deveria procurar o seu, o verbo ‘conviver’ ficaria muito mais compreensível para todos os usuários enlouquecidos dele.
Ver as mesmas pessoas todos os dias, fazer o mesmo trajeto: de casa para a faculdade, da faculdade para casa, de casa para a caminhada, da caminhada para casa. E o mais impressionate é que não sou prisioneira apenas das minhas orbigações diárias, mas de tudo o que pertence a esse mundo de responsabilidades corriqueiras. Por três anos consecutivos apanho o mesmo ônibus no mesmo horário e local com destino em comum com a grande parte dos transeuntes, e ninguém se comunica. Incrível a intolerância que cultivamos desde os primeiros passos, ela nos reveste em uma capa de individualidade intransponível. Estamos todos juntos, próximos no interior insalubre de um ônibus, somos os mesmos, ninguém com mudanças realmente relevantes, e muito menos alguém com a mudança tão excitante de ter a simpátia de iniciar uma nova relação social.
Há alguns rostos novos, alguns que são calouros nessa rotina de caminho, alguns que estão perdidos, outros que estão perdidos em si mesmos, e o silêncio é tão intrigante quanto dominador naquele espaço.
São 30 minutos escravos de uma falta de cores e sons, demasiadamente irritante. Por que ninguém se apresenta? Ou pelo menos se cumprimenta? Por que toda essa frieza e indiferença? Faço parte desse metro cúbico de antipatia.
É presunçoso que todos saibamos da vida de todos dentro daquele ônibus. Sabemos onde cada um desce e toma posse da maratona de seu dia, sabemos onde trabalham, estudam, o que fazem, os horários, e até mesmo do que gostam, uns gostam de rosa e amarelo e não se incomodam em usar a combinação, outros, se incomodam em ver tal combinação. Essa sou eu.
Só posso falar por mim, falar das minhas aspirações e opiniões, o dia dos outros não me pertence.
Insuficiente o que presencio no caminho até a faculdade todos os dias, a (in)satisfação vem à cavalo. Na faculdade as pessoas ainda são as mesmas e olhe só que novidade estúpida: os hábitos são milimetricamente os mesmos. Quiçá alguns tenham tomado as rédias de suas vidas e alterado alguma coisa por mais mínima que seja, mas superficialmente é tudo a mesmice cinza e insossa de sempre.
A sala dividida em grupos, as que estudam demais, os que estudam de menos, as que vão apenas para divulgar seu belíssimo corpo e as que lutam para alcançá-las, os que saem demais e fazem questão de catalogar suas peripécias a todo o campus e os que saem de menos e ainda assistem a missa da Puc. Rotinas diferentes, pessoas diferentes, esses lugares são verdadeiros picadeiros, manicômios e ninguém se dá conta, pois meu caro leitor há de concordar que unir 60 pessoas em uma sala de aula, apenas com o critério de terem escolhido o mesmo curso de graduação é um tanto imprevisível.
Poderiam acontecer muitas coisas, coisas agradabilíssimas e coisas extremamente dispensáveis, são seres com vidas e costumes diferentes, que nunca se viram, que nunca conviveram, e de repente são invadidas por milhões de idéias e opiniões divergentes das suas, e terão de ter flexibilidade para aceitá-las (ou descartá-las) durante cinco longos e cretinos anos.
A procura incansável por essa flexibilidade nunca recebe seu ponto final, e o que eu concluo de todo esse grito de desabafo? Particularmente, espero encontrar meu pote no final do arco-íris repleto e transbordante de flexibilidade, paciência e tolerância. Cada um deveria procurar o seu, o verbo ‘conviver’ ficaria muito mais compreensível para todos os usuários enlouquecidos dele.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Sufoco Particular
“Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro...”
Clarice Lispector
E me aproveitando do que diz a saudosa Clarice, inicio aqui o meu desabrochar.
Antes de começar a escrever esse texto, me perguntei várias vezes sobre o que escreveria, o que chamaria mais a atenção dos leitores e quais as gratificações que eu receberia. Depois de lembrar as sábias palavras de Clarice percebi que não era o público que eu alcançaria ou o tema polêmico que eu abordaria que me traria satisfação.
Percebo que realmente nada que eu escreva fará com que as pessoas mudem suas rotinas e façam desse nosso mundo um lugar pacífico e humano para que todos possam viver felizes e longe de guerras, amém. Isso as pessoas estão cansadas de ler, e também estão exaustas de serem criticadas por seus relacionamentos desleais e exaustas de serem culpadas pelo aquecimento global. E me incluo dentro desse “as pessoas”, o que me torna diferente é a ousadia que tive em exteriorizar minhas depressões e alimentar o desejo audacioso de alguém se sensibilizar com meus desabafos aqui.
Mais do que nunca começo a acreditar piamente que o hábito não é o que faz o monge.
Eu como uma estudante de direito cometo minhas injustiças diárias e por vezes não me recomponho em desculpas. E não estar sozinha nisto me acomoda como acomoda a todos os seres sentimentais deste caos em que vivemos.
Não quero tornar esse singelo texto em mais um sonho utópico e esperançoso de arrancar das pessoas os pré-julgamentos oferecidos a tudo que seja desconhecido, mas preciso tornar público o caráter de qualquer ser humano deveria valer muito mais que suas orientações, sejam elas religiosas, sexuais ou quaisquer que se intitulem.
Trazendo toda essa glória de palavras bem distribuídas e sentimentos bélicos ao mundo em que vivo, me pesa a dúvida, todos os santos e cansativos dias: “Por que cargas d’água todos nós abominamos a assombrosa hipocrisia se ela é basilar para a concorrência em que insistimos em viver?”. Caro leitor não conote minha alegação de forma pretensiosa, apenas reflita, respire fundo e assuma. Falamos que não somos isso e aquilo, que não gostamos de preconceitos e de discriminações, mas esse nosso pensamento diário é arraigado em falsidade. “Fomos criados em meio a tradições e padrões incorruptíveis, não temos culpa, é o costume”, às favas com esse costume!
Se fosse assim o costume de queimar mulheres na fogueira, de trancafiar judeus em campos de concentração e de planejar casamentos desde o feto estariam sendo cultivados fielmente até hoje! Por que somos capazes de dividir nossos sentimentos e pensamentos e tornar livres certos comportamentos e outros muitos sejam camuflados?
Como diria Renato Russo, “Mentir para si mesmo é a pior mentira”.
O que quero com tanto furor em todas essas linhas?
Nada.
Só desabafar, e pedir a aquilo que creio como força maior, que me capacite para deixar de ser um monstro e tentar todos os dias voltar a ser humana.
Espero caros e compreensivos leitores que meu desabafo não os façam mudar suas rotinas por completo, não é esse meu objetivo, mas espero que paulatinamente, cada ser espalhado por todo esse emaranhado de terra e água se torne mais tolerante com o novo, com o diferente de si.
Vale salientar aquele velho bordão, ultrapassado, chato, e sem graça para finalizar um discurso efusivo, mas perfeitamente cabível: se todos fossem iguais tudo seria muito chato.
Clarice Lispector
E me aproveitando do que diz a saudosa Clarice, inicio aqui o meu desabrochar.
Antes de começar a escrever esse texto, me perguntei várias vezes sobre o que escreveria, o que chamaria mais a atenção dos leitores e quais as gratificações que eu receberia. Depois de lembrar as sábias palavras de Clarice percebi que não era o público que eu alcançaria ou o tema polêmico que eu abordaria que me traria satisfação.
Percebo que realmente nada que eu escreva fará com que as pessoas mudem suas rotinas e façam desse nosso mundo um lugar pacífico e humano para que todos possam viver felizes e longe de guerras, amém. Isso as pessoas estão cansadas de ler, e também estão exaustas de serem criticadas por seus relacionamentos desleais e exaustas de serem culpadas pelo aquecimento global. E me incluo dentro desse “as pessoas”, o que me torna diferente é a ousadia que tive em exteriorizar minhas depressões e alimentar o desejo audacioso de alguém se sensibilizar com meus desabafos aqui.
Mais do que nunca começo a acreditar piamente que o hábito não é o que faz o monge.
Eu como uma estudante de direito cometo minhas injustiças diárias e por vezes não me recomponho em desculpas. E não estar sozinha nisto me acomoda como acomoda a todos os seres sentimentais deste caos em que vivemos.
Não quero tornar esse singelo texto em mais um sonho utópico e esperançoso de arrancar das pessoas os pré-julgamentos oferecidos a tudo que seja desconhecido, mas preciso tornar público o caráter de qualquer ser humano deveria valer muito mais que suas orientações, sejam elas religiosas, sexuais ou quaisquer que se intitulem.
Trazendo toda essa glória de palavras bem distribuídas e sentimentos bélicos ao mundo em que vivo, me pesa a dúvida, todos os santos e cansativos dias: “Por que cargas d’água todos nós abominamos a assombrosa hipocrisia se ela é basilar para a concorrência em que insistimos em viver?”. Caro leitor não conote minha alegação de forma pretensiosa, apenas reflita, respire fundo e assuma. Falamos que não somos isso e aquilo, que não gostamos de preconceitos e de discriminações, mas esse nosso pensamento diário é arraigado em falsidade. “Fomos criados em meio a tradições e padrões incorruptíveis, não temos culpa, é o costume”, às favas com esse costume!
Se fosse assim o costume de queimar mulheres na fogueira, de trancafiar judeus em campos de concentração e de planejar casamentos desde o feto estariam sendo cultivados fielmente até hoje! Por que somos capazes de dividir nossos sentimentos e pensamentos e tornar livres certos comportamentos e outros muitos sejam camuflados?
Como diria Renato Russo, “Mentir para si mesmo é a pior mentira”.
O que quero com tanto furor em todas essas linhas?
Nada.
Só desabafar, e pedir a aquilo que creio como força maior, que me capacite para deixar de ser um monstro e tentar todos os dias voltar a ser humana.
Espero caros e compreensivos leitores que meu desabafo não os façam mudar suas rotinas por completo, não é esse meu objetivo, mas espero que paulatinamente, cada ser espalhado por todo esse emaranhado de terra e água se torne mais tolerante com o novo, com o diferente de si.
Vale salientar aquele velho bordão, ultrapassado, chato, e sem graça para finalizar um discurso efusivo, mas perfeitamente cabível: se todos fossem iguais tudo seria muito chato.
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