terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Sufoco Particular

Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro...”

Clarice Lispector

E me aproveitando do que diz a saudosa Clarice, inicio aqui o meu desabrochar.
Antes de começar a escrever esse texto, me perguntei várias vezes sobre o que escreveria, o que chamaria mais a atenção dos leitores e quais as gratificações que eu receberia. Depois de lembrar as sábias palavras de Clarice percebi que não era o público que eu alcançaria ou o tema polêmico que eu abordaria que me traria satisfação.
Percebo que realmente nada que eu escreva fará com que as pessoas mudem suas rotinas e façam desse nosso mundo um lugar pacífico e humano para que todos possam viver felizes e longe de guerras, amém. Isso as pessoas estão cansadas de ler, e também estão exaustas de serem criticadas por seus relacionamentos desleais e exaustas de serem culpadas pelo aquecimento global. E me incluo dentro desse “as pessoas”, o que me torna diferente é a ousadia que tive em exteriorizar minhas depressões e alimentar o desejo audacioso de alguém se sensibilizar com meus desabafos aqui.
Mais do que nunca começo a acreditar piamente que o hábito não é o que faz o monge.
Eu como uma estudante de direito cometo minhas injustiças diárias e por vezes não me recomponho em desculpas. E não estar sozinha nisto me acomoda como acomoda a todos os seres sentimentais deste caos em que vivemos.
Não quero tornar esse singelo texto em mais um sonho utópico e esperançoso de arrancar das pessoas os pré-julgamentos oferecidos a tudo que seja desconhecido, mas preciso tornar público o caráter de qualquer ser humano deveria valer muito mais que suas orientações, sejam elas religiosas, sexuais ou quaisquer que se intitulem.
Trazendo toda essa glória de palavras bem distribuídas e sentimentos bélicos ao mundo em que vivo, me pesa a dúvida, todos os santos e cansativos dias: “Por que cargas d’água todos nós abominamos a assombrosa hipocrisia se ela é basilar para a concorrência em que insistimos em viver?”. Caro leitor não conote minha alegação de forma pretensiosa, apenas reflita, respire fundo e assuma. Falamos que não somos isso e aquilo, que não gostamos de preconceitos e de discriminações, mas esse nosso pensamento diário é arraigado em falsidade. “Fomos criados em meio a tradições e padrões incorruptíveis, não temos culpa, é o costume”, às favas com esse costume!
Se fosse assim o costume de queimar mulheres na fogueira, de trancafiar judeus em campos de concentração e de planejar casamentos desde o feto estariam sendo cultivados fielmente até hoje! Por que somos capazes de dividir nossos sentimentos e pensamentos e tornar livres certos comportamentos e outros muitos sejam camuflados?
Como diria Renato Russo, “Mentir para si mesmo é a pior mentira”.
O que quero com tanto furor em todas essas linhas?
Nada.
Só desabafar, e pedir a aquilo que creio como força maior, que me capacite para deixar de ser um monstro e tentar todos os dias voltar a ser humana.
Espero caros e compreensivos leitores que meu desabafo não os façam mudar suas rotinas por completo, não é esse meu objetivo, mas espero que paulatinamente, cada ser espalhado por todo esse emaranhado de terra e água se torne mais tolerante com o novo, com o diferente de si.
Vale salientar aquele velho bordão, ultrapassado, chato, e sem graça para finalizar um discurso efusivo, mas perfeitamente cabível: se todos fossem iguais tudo seria muito chato.

Nenhum comentário:

Postar um comentário